Artigos


10/12/2018
Autor: Angela Hiluey
Disforia de gênero na infância e na adolescência
Autores: Alexandre Saadeh, Beatriz Bork, Desirèe Monteiro Cordeiro, Luciane Gonzalez Valle

 

O trabalho interdisciplinar, ou mais afeito ao que fazemos, transdisciplinar com a população trans é algo novo no Brasil. Tem pouco mais de vinte anos. No início só com adultos e desde 2010, com a criação do AMTIGOS (Ambulatório Transdisciplinar de identidade de Gênero e Orientação Sexual do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), pioneiramente se iniciou trabalho com crianças e adolescentes.

Costumamos dizer que o trabalho com a população adulta é reparador, pois já existe toda uma vivência discriminada ou não em relação à identidade de gênero. Com as crianças o trabalho é preventivo, visando evitar as condições estigmatizantes e excludentes relacionadas à identidade de gênero. Com os adolescentes é um trabalho de diminuir danos, pois a infância e a puberdade podem ter deixado marcas psíquicas e físicas causadoras de sofrimento intenso.

Discorrer sobre questões relativas ao gênero na infância é bastante delicado e ainda não existe uma vasta literatura sobre o tema, essa complexidade deve-se ao fato do próprio desenvolvimento infantil e do preconceito que existe sobre esse assunto.

A criança é um ser humano de pouca idade e sua infância é definida como um período da sua fase de crescimento que vai do nascimento até a puberdade. Na sua origem etimológica, o termo infância vem do latim infans, que significa ausência de linguagem. No cerne do legado ideológico ocidental, não ter linguagem significa ausência de pensamento, ser desprovido de conhecimento e não ser munido de racionalidade. Nesse sentido, a criança sempre foi vista como um ser menor a ser educado por um longo intervalo de tempo até adquirir sabedoria e autonomia.

Saleiro (2017) também sustenta em seus artigos que não temos uma vasta gama de estudos que tenham as crianças como protagonistas, essas crianças não tinham espaço para se expressar, como podem fazer atualmente e só poderíamos reconhecer sua existência no relato dos adultos; a mesma autora aponta a necessidade de fazermos novos estudos.

Antes de entrarmos especificamente no tema da transgeneridade, gostaríamos de contextualizar a criança de hoje. Se tivermos um olhar um tanto mais observador e apurado, iremos constatar que na contemporaneidade o papel das crianças influencia a nossa sociedade, elas interferem e ocupam uma função dentro do nosso grupo social. Elas participam coletivamente da sociedade e nela são sujeitos ativos, não meramente passivos. Isso significa que na atualidade se propõe estudar a infância por si mesma, rompendo com a prática social que estabelece o poder aos adultos; que deixavam os jovens e crianças com menor liberdade, devido a alguma carência de formação.  Atualmente compreendemos a criança como um ser social, produtor de cultura, ativo e consciente de si. Criança pensa, articula e produz conhecimento quando estimulada, é provida de autocrítica e também de autoconhecimento.

 

No Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, 1990):

“Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade... A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade... É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.”

 

Dessa forma, a criança passa a ocupar esse novo papel social, e assim, começa a ser ouvida quando manifesta a incongruência de gênero em relação ao seu sexo de nascimento, mesmo que sejam muito pequenas. É importante ressaltar que não é por esse motivo que simplesmente fechamos a questão, mas o que nos é dito pela criança é valorizado. Poder ouvi-las indica que precisamos prestar atenção no que significa a fala dela. Elas podem transitar sua autopercepção de identidade de gênero e nosso papel é o de permitir experienciar todas às facetas da identidade com aquela que se identificam, sem forçá-las a congruência ou não ao seu sexo biológico.

Pesquisas atuais, como a da psicóloga Kristina Olson (2015) que é associada à Universidade de Washington, realizadas no laboratório de desenvolvimento cognitivo social, criou o TransYouth Project, que tem uma proposta de estudar longitudinalmente crianças e adolescentes transgêneros e seus irmãos pelo período de 20 anos, nesse trabalho já se inscreveram mais de 300 pessoas. Assim como nesse projeto, a equipe do AMTIGOS (Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual), com a coordenação do Prof. Dr Alexandre Saadeh, ampliou o espectro do seu trabalho com a população transgênera. Inicialmente assistia apenas adultos e a partir de 2010 iniciou o atendimento também aos adolescentes e passou a acompanhar longitudinalmente as crianças. Em agosto de 2018, contabilizamos o acompanhamento com 56 crianças de todo o país e suas famílias e temos 59 na fila de espera para triagem.

Os pesquisadores postulam que se deve perceber e valorizar as demonstrações pessoais das crianças desde a primeira infância. Pascoto (2006) aponta que as percepções e a atenção iniciam-se quando a criança tem apenas meses de idade e são demonstradas por meio de suas escolhas e gostos, essas manifestações podem coincidir ou não com as expectativas sociais de expressões de um ou de outro gênero.

Esses esforços em tratar da questão de gênero sob a ótica do desenvolvimento infantil, aliadas às nossas observações e cotidiano do nosso trabalho no ambulatório, tem nos mobilizado a direcionar nossa atenção e pesquisa acerca da construção do gênero na infância.

Obviamente que, por tratarmos de um tema que desperta muito preconceito, e sobretudo, um tema que envolve crianças, colocamos algumas questões para que possamos refletir. Uma criança de 3 ou 5 anos é um sujeito ativo que pode ter opiniões sobre as coisas que vivencia? Muitas vezes, as crianças são imaturas, mas seria possível que elas estivessem muito mais inteiradas das situações do que se imagina?

Aos 3 ou 4 anos, quando a criança começa a falar e a se expressar, ela já demonstra o gênero que a descreve de diversas maneiras, nessa idade é capaz de nomear seu gênero e é por volta dos 6 anos que descobre que o gênero não muda de acordo com a roupa que usa. Como uma criança de tenra idade, isto é desde seus 3 anos, pode ter propriedade para falar de sua possível transgeneridade, e então lhe colocamos a seguinte pergunta: por que não fazemos esse questionamento e não sentimos tamanho estranhamento quando a criança se diz cisgênero?[1]

É importante salientar que nenhuma criança no Brasil está passando por qualquer tratamento irreversível como hormonioterapias ou cirurgias. Na infância, o tratamento para questões de gênero consiste, principalmente, na orientação e psicoterapia que auxiliam a criança, tanto no bem-estar emocional quanto na sua percepção ou não da manutenção da questão de gênero, aliado ao trabalho de orientar pais e escolas. Em casos de crianças com sintomas psicopatológicos a conduta é a mesma que é aplicada em crianças que não apresentem questões de gênero. Nenhum outro tratamento ou prescrição médica endocrinológica ocorrerá até que a criança se aproxime da puberdade.

A transição social é o processo em que a criança passará por algumas alterações, que não necessitam de qualquer intervenção médica, tais como: mudança de nome, alternância de pronomes, utilização de roupas do sexo oposto ao do nascimento e autoapresentação em situações sociais em outro gênero.

2 The prevalence rates of GD among children has been estimated to be less than 1%. Jesus (2013) revela que se essa experiência de inadequação ocorre na infância, a transgeneridade se elucidará, na maioria dos casos, até o final da adolescência.Currently there is a vigorous, albeit suppressed, debate among physicians, therapists, and academics regarding what is fast becoming the new treatment standard for GD in children.

Identificar e diagnosticar uma criança como transgênera é algo muito difícil, pois elas podem transitar entre um gênero e outro durante a infância toda, não há um tutorial para se identificar a criança transgênero. O mais sensato a se fazer é questionar, considerar e respeitar o conteúdo daquilo que ela relata, afinal não existe ninguém mais adequado do que ela mesma para dizer quem ela é e qual é a sua identidade de gênero. Fases passam, mesmo que deixem marcas na construção da identidade de qualquer individuo. Considerando as faixas etárias, entendemos que há variações. Por exemplo, quando pensamos na criança de 3 a 5 anos, todos esses aspectos podem se referir a fantasias ou brincadeiras criativas. A partir dos 5 anos e com a persistência da criança, ficará mais claro e evidente sua identidade de gênero. Quando a fase permanecer no discurso da criança até a adolescência, precisamos ouvi-las com maior atenção e começar a supor que talvez não seja mais apenas uma fase, mas sim algo intrínseco a subjetividade daquele pré-adolescente.

A noção de gênero, diferentemente da concepção de sexo, macho ou fêmea, Gender identity refers to an individual's awareness of being male or female and is sometimes referred to as an individual's “experienced gender.” Gender dysphoria (GD) in children describes a psychological condition in which they experience marked incongruence between their experienced gender and the gender associated with their biological sex. é um conceito que se refere às características psicológicas associadas e construídas em relação ao sexo biológico do indivíduo.

Para as crianças bem pequenas, os conceitos iniciais sobre gênero são bastante flexíveis e elas experimentam todas as possibilidades com tranquilidade e liberdade. Um aluno da educação infantil pode acreditar nessa transitoriedade e perguntar para um adulto se ele era menino ou menina quando era criança, ou um garoto pode dizer que gostaria de ser mulher quando crescer, sem nenhuma estranheza.

Como foi relatado anteriormente, dentre as pesquisas citadas, o conceito de gênero das crianças se desenvolve paulatinamente entre 3 a 5 anos. Olson (2015) ressalta que antes dos 5 anos, as crianças não parecem considerar que o gênero seja algo imutável. Depois que as crianças passam a considerar o gênero como uma característica consolidada, elas também introduzem o gênero em sua própria identidade. Desse modo, tornam-se motivadas a se relacionar com outros membros de seu grupo e procuram informações relacionadas ao gênero que se identificam.

Geralmente, as crianças têm sua identidade de gênero congruente com seu sexo biológico, mas não são todas que se identificam totalmente com as características sexuais do seu nascimento. Aquelas que não são congruentes relatam a incompatibilidade que sentem com a genitália que nasceram. Some girls subjectively feel as though they are actually boys, and some boys subjectively feel as though they are actually girls. Algumas meninas percebem-se diferentes, identificam-se e sentem-se como se fossem meninos, e alguns garotos concebem-se como garotas. This phenomenon, commonly referred to as being “transgender,” is not a psychiatric disorder, but when children experience significant distress as a result of being transgender, they may have the disorder called gender dysphoria.Esse fenômeno retrata a vivência de uma criança transgênero.

A disforia de gênero pode afetar crianças que se identificam como transgênero, não se identificam com as características sexuais com as quais nasceram, e que sofrem com essa contradição. Being transgendered is not a psychiatric disorder. É importante ressaltar que ser transgênero não é categorizado como um transtorno psiquiátrico, mas a Gender dysphoria is diagnosed only if a child experiences severe distress due to being transgender. disforia de gênero sim. A disforia de gênero só é diagnosticada se a criança vivenciar um sofrimento profundo por causa de sua transgeneridade e essa investigação é feita pelo profissional da saúde.

A concepção da disforia de gênero como sendo um distúrbio distinto foi feita para remover o estigma sobre o ser transgênero e para mudar o foco da preocupação dos profissionais de saúde mental em ajudar aqueles nos quais a experiência de ser transexual resulta em sofrimento significativo e funcionamento psíquico prejudicado.

Uma criança que sofre de angústia como resultado de sua identidade de gênero, especialmente se é intimidada ou marginalizada, vivencia maior risco para desenvolver quadros psiquiátricos, como transtornos de ansiedade, depressão e abuso de substâncias, entre outros.

Lodi e Kotlinski (2017), afirmam que suas pesquisas revelaram um dado preocupante para a saúde pública, perceberam um aumento de três vezes a mais no número de tentativas de suicídio em crianças com disforia de gênero em relação à população que não apresenta incongruência de gênero.

 

Adolescência

As crianças se desenvolvem física e psiquicamente e a próxima fase a ser experimentada é a adolescência. E como é sentida a chegada dessa fase pelo individuo que esta saindo da infância?

Inicialmente devemos discorrer um pouco sobre o que é adolescência: “Adolescência” palavra de origem latina que significa crescer para (ad = para e olescere = crescer). É o período de transição da infância para fase adulta, possibilita aos jovens ter tempo para se prepararem para as exigências do mundo adulto de forma adequada.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a adolescência corresponde ao período biopsicossocial que ocorre na segunda década da vida, ou seja, entre os 10 e 20 anos. Para o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o período que compreende a adolescência é dos 12 aos 18 anos. Porém reconhecemos que a adolescência pode se estender para o começo da vida adulta, até por volta dos 25 anos.

Essa possibilidade da adolescência se estender relaciona-se com o conceito de que a adolescência tem seu início na puberdade, mudanças fisiológicas que ocorrem no período transicional da infância para a juventude,  e finaliza com o processo de inserção social, profissional e econômica no mundo adulto.

A dificuldade geracional imposta na relação entre pais e filhos adolescentes é real, e precisa ser posta de lado, para que todos consigam se enxergarem como quem realmente são, e não como eu desejo que seja. As expectativas do que cada um quer para o outro não podem estar presentes em uma conversa na qual se pretende conhecer o outro.

Sabe-se que o período da adolescência por si, já é muito complexo e envolto em confusão para grande maioria das pessoas. Isso porque é exatamente nesse período que o nosso corpo começa a experimentar mudanças, a apresentar características que associamos aos sexos biológicos adultos,se diferenciar sexualmente. Nesse momento surgem de maneira mais importante as espinhas, mas em especial os seios, a menstruação, o aumento dos testículos e pênis, os pelos pelo corpo, as mudanças de timbre da voz, etc.

Além dessas mudanças físicas, curiosamente este é o momento em que mais se tem a necessidade de fazer parte, de pertencer a um grupo de pessoas que tenham similaridades, que estejam sentindo ou passando pelas mesmas coisas na vida, resumidamente nos quais nos reconheçamos.

Por fim, é importante lembrar que adolescência é um momento em que os conflitos são vivenciados, também por quem está ao seu redor, como os familiares, amigos, professores, etc.

Deixemos claro que, para o adolescente, esse é um período de grandes transformações e questionamentos que transcendem o convívio familiar e se estendem também para outras esferas sociais, como círculos de amizades, relacionamentos amorosos e vida escolar. E é aqui que podem surgir os grandes conflitos dessa fase, considerando que a falta de apoio e a inabilidade para lidar com o adolescente conflitante pode levá-lo a ter comportamentos autodestrutivos e/ou aumentar os atritos entre ele e o mundo externo.

Agora imagine como é uma adolescência transexual! Se apresentar o desenvolvimento dos caracteres sexuais em seu corpo de acordo com o seu gênero já é uma questão de grande conflito, imagine quando eles se desenvolvem de forma incongruentes ao do seu gênero.

Por exemplo, imagine Maria, que nasceu menina (seu sexo biológico designado ao nascimento), mas desde que se “entende por gente” sente-se um menino e se identifica como tal. Na puberdade, início da adolescência, Maria começa a se desenvolver sexualmente como menina. Isso significa o surgimento de seios, início da menstruação, mudanças da distribuição de gordura corporal (concentrando-se em seios e nádegas), em alguém (menino) que não se sente assim. Alguém (menino) que queria ver desenvolvimento sexual masculino, pelos, pênis e testículos crescendo, voz ficando mais grave.

Além disso onde esse menino ou menina vai se “encaixar”, qual será o grupo que servirá de espelho para que ele se reconheça? A priori não existe, ele está sozinho, tanto na escola, em casa na vida!

Conseguiu imaginar o tamanho do conflito?

Nossas características sexuais seguem a influência do sexo biológico e não do gênero. E muitas das atividades escolares são divididas por sexo. Em qual grupo um adolescente transexual se “encaixa”? Onde ele pode se sentir fazendo parte? Se reconhece? Qual banheiro ele pode/deve frequentar? E ai se instaura um grande conflito. Tão grande que esses adolescentes se sentem vulneráveis, e muitas vezes chegam a se colocar em risco de vida, por não suportarem tantas questões, tantos conflitos, que parecem não ter solução.

A transexualidade no período da adolescência é um momento de turbulência intensa. Por conta disso, esse momento é tão delicado e requer muitos cuidados.

O corpo se revela para o mundo e acaba por revelar as questões de cada um. O mundo e a sociedade se apresentam cheias de duvidas e questionamentos, que atravessam a identidade desses sujeitos, que também se questionam e ficam cheios de duvidas. Ter uma escuta acolhedora e capaz de fazer com que este adolescente se compreendam apesar de tudo e todos é fundamental. Entender junto com esse adolescente que tudo precisa ser desconstruído e reconstruído inúmeras vezes, até fazer mais sentido para ele.

Sabemos que quando um adolescente, transexual ou não, tem uma base familiar sólida, onde a família exerce o papel de acolhimento, participa dos conflitos e questões desse jovem, o desenvolvimento é um pouco menos turbulento, e esses têm pra onde correr quando o desespero bate. Por outro lado, quando um adolescente, em especial transexual (por ter dificuldades em achar um grupo externo) não tem essa base familiar, a sensação é de desesperança e abandono total.

Para que esse acolhimento familiar ocorra é necessária muita conversa e paciência de ambos os lados. É extremamente importante fazer um exercício de ouvir o que o outro tem a dizer, e aceitar que isso é a vivencia dele. E neste caso podemos falar tanto dos pais para com o adolescente, quanto do adolescente para com os pais. Para uma relação de respeito é preciso sentir que existe espaço para questão que não necessariamente são simples, ou vão de encontro ao pensamento da família em si. É preciso respeitar o adolescente como individuo, que sim, tem capacidade de fazer algumas escolhas, mas não todas.

É fundamental preparar uma escuta acolhedora para adolescentes com questões em sua identidade de gênero, mais do que em quaisquer outras questões, pois esse é um ponto muitas vezes fragilizado. Mas isso é um processo de aprendizado, e como tal requer tempo, dedicação e paciência.

Na nossa prática observamos que os adolescentes precisam se sentir fazendo parte de um grupo, de algo que não encontram em outros espaços. A nossa proposta é realizar o atendimento psicoterápico em grupo, para que eles possam se sentirem entre “iguais”. As aspas são porque, apesar da questão transexual ser de todos, nenhum é igual ao outro, eles têm algo em comum mas não sentem da mesma forma. E quando falamos de adolescentes  esse é o maior aprendizado, eles querem se inserir, mas não querem ser taxados, não querem ser identificados por alguém, mas sim se auto identificar. E isso gera mais um conflito, pois sozinho, é árduo demais fazer isso. O reconhecimento de outras pessoas com questões similares e um psicoterapeuta com escuta apurada são fundamentais neste processo, além do apoio familiar.

A ideia do processo de psicoterapia em grupo é a mesma de estarem em pares e se reconhecerem, porém facilitando também o processo de transição. Buscando com cada um deles um momento de autopercepções de seus sofrimentos, e como podem achar força para sobreviverem a questões que a incongruência entre gênero e sexo podem causar.

O processo psicoterápico é necessário para o fortalecimento da psique frente as exigências que funcionam como pressão e fazem com que este adolescente viva sensação e emoções novas, fortes, ambivalentes em alguns momentos e as vezes potencialmente desorganizadoras.

Nos adolescentes a psicoterapia facilita a reflexão sobre o processo de mudança físico-emocional que enfrentam. Ajuda no autoconhecimento, na gestão dos conflitos, permitindo que tome decisões pessoais e profissionais de forma mais consciente e adulta.

É importante entender algumas dificuldades em faz necessário buscar psicoterapia para adolescentes:

 

ü    Dificuldades escolares recorrentes;

ü    Relacionamento familiar recorrente;

ü    Problemas relacionados ao corpo e a imagem corporal;

ü    Distúrbios alimentares (anorexia, bulimia e obesidade)

ü    Dificuldades relacionadas à sexualidade e sua descoberta;

ü    Comportamentos agressivos sem motivo, ou fora de proporção;

ü    Dificuldades no relacionamento familiar;

ü    Problemas depressivos e ansiosos;

ü    Problemas com a integração com colegas;

ü    Mudanças repentinas de humor sem justificativa;

ü    Dependência química;

ü    Ideação suicida;

ü    Automutilação;

ü    Medos, fobias.

 

Não necessariamente precisa ser um profissional (psicólogo ou psiquiatra) especialista na questão de gênero. A menos que, a grande questão seja relacionada a isso ou a seu processo de transição.

No AMTIGOS contamos com uma equipe multidisciplinar, que neste caso é importante para poder circular saberes e perspectivas sobre esses adolescentes. E ai é necessário um espaço especializado, no qual os profissionais são treinados a esta escuta no viés da questão de gênero.

A questão mais importante quando falamos de adolescentes com incongruência de gênero, é saber respeitar as características de cada um, além de estar próximo. O adolescente, transexual, assim como qualquer outro, tem a necessidade de sentir-se pertence a algum núcleo, que pode ser o familiar, o de amigos, o de alguma religião.

Na questão especifica de adolescentes com incongruência de gênero, fica marcada a necessidade de que o próprio adolescente consiga dizer como se vê e se sente.

Quanto ao nome social, ou seja, nome escolhido para representar realmente como este adolescente se sente frente a sua transexualidade, que normalmente é diferente do nome de registro, e busca se adequar com a sua aparência. A ideia é ser respeitado nessa escolha pelas pessoas com quem convive. Incluindo os artigos e terminações das palavras que derivem no feminino e/ou masculino e/ou neutro.

Essa questão é muito delicada, uma vez que a família, normalmente, já chama o adolescente do nome de nascimento e apresenta certa resistência a esta mudança. Essa resistência pode aparecer ora por conta da expectativa dos pais em relação ao filho(a) e o que gostaria que ele fosse, ora pelo adolescente não aparentar fisicamente ser do gênero masculino ou feminino, e de certa forma, deixas as pessoas confusas em suas expectativas do que é feminino ou masculino ou ora por não aceitação de fato da transexualidade do adolescente em questão.

Chamar o adolescente pelo nome que ele escolheu ser chamado, gera uma sensação de respeito e pertencimento como quem se sente realmente, que é validado no olhar do outro frente a questão transexual. O nome é das condições mais vexatórias se não adequado, pois é o que expõe nas situações mais corriqueiras do cotidiano a identidade dessas pessoas.

A questão da mudança de sexo no documento, certidão de nascimento, vai acarretar mudanças como passaporte, exercito, entre outras que necessitem de preenchimento do sexo.

Um fator muito importante para os adolescentes e adultos transexuais, é o nível de “passabilidade”. Ou seja, é o quanto determinada pessoa passa desapercebido(a) no gênero ao qual se sente. É muito comum ver os adolescentes usando esse termo. Fulano tem “passabilidade” 100%, ninguém diz que ele não nasceu do gênero que se sente. Ou ainda, fulano não tem “passabilidade” nenhuma, qualquer pessoa consegue ver que é uma pessoa transexual.

Esse fator da “passabilidade” é outro grande estressor na vida das pessoas transexuais. Isto porque se considera que alguém que passa como pertence ao gênero que se sente sofre menos estigma e preconceito. Já a pessoa que não tem “boa passabilidade” acaba enfrentando muitas situações discriminatórias, preconceitos, xingamentos, brigas, etc., no convívio tanto social quanto familiar.

Atualmente sabemos que muitos adolescentes transexuais estão inseridos no mercado de trabalho tendo concluído seus estudos, porem a escola é dos lugares mais inóspitos para um adolescente transexual. Muitos desistem do curso normal de escola, e deixam para mais velhos, fazer um supletivo e resolver de forma rápida um assunto que incomoda tanto quanto o convívio com outros adolescentes.

Nesse sentido, é importante destacar a importância de se manter este adolescente estudando e motivado para isso, visando que ele consiga superar estas questões de preconceitos, e com isso se inserira no mercado de trabalho por seus méritos e qualidades, independentemente da questão de gênero. Parece obvia esta questão, mas não é. Se lembrarmos que no Brasil as mulheres ainda estão, em sua maioria, em cargos inferiores e com salários menores que os dos homens, imagina como isso se dá para uma pessoa transexual.

Além disso entendemos necessário, dentro do ambulatório, os pais terem um espaço mensal para que eles consigam se colocar também, frente a seus pares (outros pais/parentes), e até mesmo frente a seus filhos. Esse momento é dos mais ricos no atendimento, pois a partir dai podemos possibilitar esta escuta diferente de ambos os lados. E, mesmo que não aconteça de se vivenciar isso ali, no grupo, todos estão participando, e quando chegam em casa tem um exemplo de como devem e como não devem fazer, por meio da construção de suas referencias.

Fora do atendimento de um centro especializado, as famílias e adolescentes podem buscar apoio em psicoterapia individual ou de grupo e também psicoterapia familiar. Pois de fato essa transição necessita de amparo de ambos os lados.

 

O papel fundamental dos pais

Além de acompanhar longitudinalmente crianças e adolescentes transgêneros é necessário prestar assistência às famílias e orientação às escolas.

Sabe-se que o apoio familiar é imprescindível no acompanhamento de crianças e adolescentes, independentemente de sua transgeneridade. No AMTIGOS, os encontros com os familiares de crianças são feitos mensalmente e tem duração de duas horas.  Com os adolescentes também, mas são realizados ora somente com os pais, ora com eles e os adolescentes em conjunto. Embora seja uma relação conflituosa e delicada, é fundamental que os pais participem e compreendam o trabalho a ser feito. Nos dois grupos, as reuniões são abertas, o que significa que novos pais podem aderir a qualquer tempo, o que intensifica a troca e a percepção de cada um em seu processo. Para a participação das crianças e adolescentes no nosso protocolo, vale salientar que os menores de 18 anos precisam da autorização dos pais.

Na maior parte das vezes os pais se sentem perdidos, sem saber como agir. Os que aceitam e respeitam a condição de seus filhos, recebem acusações de membros da própria família ou pessoas próximas de serem incentivadores deste comportamento, isso ocorre tanto nas crianças quanto nos adolescentes; os que não aceitam tentam coibir a manifestação de seus filhos com impedimentos, agressões ou castigos.

Frequentemente, as crianças são trazidas pela família que não compreendem o fenômeno, angustiam-se com muitas dúvidas, medo e culpa. A criança é sempre trazida por seus pais, ou por seu responsável legal e a experiência deste trabalho com eles é muito enriquecedora para os psicoterapeutas e para todos participantes do grupo. É um encontro marcado por muita emoção e relatos perturbadores, mesmo aqueles que não se expressam verbalmente, ficam claras outras formas de comoções. Muitas vezes, a questão da transgeneridade deixa de ser o fio condutor da vivência, ouvimos relatos sobre as dificuldades dos pais e mães com dúvidas e incertezas de como agir no processo de desenvolvimento infantil, assuntos pertinentes a quaisquer pais.

Nesses encontros podemos fazer uso de várias técnicas psicoterapêuticas para o manejo do grupo: reuniões abertas, técnicas psicodramáticas, grupo temático, relatos de vivências, depoimentos compartilhados, etc.

Ter um filho com questões de gênero faz com que seus pais tenham sentimentos ambivalentes, ora apoiam e compreendem, ora coíbem e punem. Nem sempre as crianças apresentam com clareza sua auto percepção, como já relatamos, elas podem transitar entre o masculino e o feminino durante toda sua infância. Em alguns casos a clareza da identidade de gênero só se apresentará solidificada no início da puberdade. Nem sempre elas são tão explícitas, no que se refere à sua condição, seja por não terem ampla compreensão, ou mesmo por perceberem o rechaço por parte de seus vínculos afetivos ou familiares principais, mesmo que esses não sejam tão evidentes.

Alguns pais, quando percebem o relato desses anseios e a incongruência de gênero, concluem que provavelmente terão um filho com orientação sexual homoafetivo. Relatam sentirem muita ansiedade e consternação, ficam preocupados em notar o sofrimento de seus filhos demonstrado por seus comportamentos, falta de alegria nos sorrisos ou de brilho no olhar quando impedidos de expressar sua condição.

Os pais relatam que muitas das crianças expressaram muito cedo a sua incongruência de gênero, que nunca foram incentivadas neste sentido, que eles tentaram de diversas maneiras que agissem diferente; pediram auxílio para padres, ou referências religiosas, fizeram orações, buscaram diversos profissionais na tentativa de encontrar orientações, impediram seus filhos de terem contato com tudo que seria interpretado com esta expressão e buscaram diversas medidas para que houvesse mudanças, nenhuma eficaz e capaz  de alterar o comportamento desses indivíduos. Apenas conseguiam que essas crianças fossem cada vez mais tristes, sem convívio social, com baixo desempenho escolar e ansiosas. Referem que a partir do momento que permitiram que seus filhos se expressassem, passaram a ficar menos agressivos ou tristes. Eles relatam culpa e dor por tê-los impedido e por terem feito tais exigências, em contraste com o que puderam ver neles após suas mudanças de postura; e aí evidenciam a alegria e as novas expressões que nunca tinham visto anteriormente em seus filhos. No entanto, vivenciaram diversas críticas, perderam amigos e passaram a ter inúmeras dificuldades e novos temores.

O encontro do grupo de pais tem por objetivo acolher as questões apresentadas, compartilhar experiências acompanhar e compreender o universo familiar das crianças, responder às dúvidas do processo que é proposto dentro do nosso trabalho como questões ligadas: à psicoterapia, a possibilidade do bloqueio hormonal, uso do nome social, ideação suicida, as diferenças das experiências entre aqueles que iniciam o processo e os que já têm um percurso dentro do ambulatório, etc.

Muitos dos temas tratados com os pais de crianças emergem no trabalho realizado com os pais de adolescentes. Ter um filho adolescente provoca sentimentos intensos nos pais porque eles costumam ser impulsivos, intransigentes e desafiadores, essas emoções são potencializadas quando o adolescente vivencia a transgeneridade. A adolescência é uma fase bastante complexa, de muitas mudanças, o que também ocorre com os púberes transexuais, e é ainda agravada por ser um marco das mudanças puberais que os atingem duramente, por evidenciar a marca biológica, explicitando o conflito da identidade em relação a imposição biológica.

Por este motivo é tão importante esses momentos com seus pais, ou responsáveis.

O que foi tratado dentro das sessões com os psicoterapeutas dos adolescentes, que fazem acompanhamento em grupo terapêutico, nunca é pontuado pelos psicólogos no grupo de pais, mas nestes encontros eles próprios, pais ou adolescentes, trocam experiências e intimidade. Os pais, geralmente falam de suas angústias e conflitos em relação a si mesmos e aos filhos, são discutidos diversos temas como: o uso de hormônio cruzado, questões legais, mudança de nome, drogadição, entre outros. Trocam-se informações e ideias de como agir frente a diversas situações, indicações de convênio médico, empresas que recebem e lidam bem com a diversidade e profissionais que podem auxiliar nesse processo.

Presenciamos diversos conflitos e dores nos relatos dos pais que tinham dificuldades em aceitar a identidade de seus filhos, mesmo se notassem ou não que desde muito novos ele ou ela “era diferente”. Eles relatam, assim como os pais de crianças, que acreditavam que seus filhos seriam homossexuais e que, para eles, a vivência de um transexual seria mais difícil de compreender, de aceitar, de entender e que a incongruência de gênero elevavam suas preocupações em relação à vida de seu filho em sociedade, a violência e o preconceito, além de terem fortes temores e fantasias com as futuras mudanças ou intervenções que precisariam ser feitas.

Presenciamos histórias de acusações e muita solidão daqueles que acompanham seus filhos sozinhos sem nenhuma parceria ou apoio de outro familiar. Ouvimos declarações de gratidão e de amor de filhos que afirmaram só estarem vivos (que pensaram, ou tentaram o suicídio e não viam saída para seu sofrimento) pela ajuda de um familiar significativo neste processo, outros que atravessaram muitas dificuldades por não terem o apoio de algum familiar e, em contraste, com adolescentes que se sentiam atropelados pela postura de alguém que aceitava totalmente e estava à frente do processo de seu filho. Os pais relatam a necessidade de se questionarem sobre seus conceitos, de terem tido a ilusão de serem compreensivos e modernos e que, neste momento, se percebiam retrógrados e inseguros.

A compreensão de cada um passou necessariamente por sua construção e história de vida, o que deixou evidente não depender de idade, sexo ou religião, encontramos avós, relatos de religiosos, pessoas mais jovens ou mais velhas que puderam acolher estes adolescentes e outros com as mesmas características que não conseguem ou ainda não conseguiram. O que é fato é que quando a convivência com adolescentes transgênero passa pelo afeto e o olhar do outro, mesmo que haja dificuldade, percebemos a tentativa e a busca de se apropriar e compreender o fenômeno por meio do respeito e da escuta desarmada. É um processo que demanda tempo no papel de pais, o que, com frequência, não é simples para o adolescente.

É possível perceber que nessas reuniões os responsáveis relatam situações bastante frequentes na vida de quaisquer adolescentes, como não organizar seus pertences, discutir e questionar a autoridade dos pais, sair sem telefonar ou dar satisfações, dúvidas sobre envolvimento com drogas, etc. No entanto, o fato de morarmos no Brasil, que é um país com questões de preconceito e violência significativos, agrega-lhes um temor ainda maior, de que estes adolescentes sofrerão algum tipo de ataque ou punição por ser quem são. Entre estas dúvidas, fica claro o temor de que seus filhos não terão: um papel construtivo na sociedade, amigos, namorado (a), emprego, entre outros.

Nas reuniões, com a presença dos adolescentes, esses temas também são abordados, mas temos o enriquecimento das experiências vividas por eles próprios. O relato de suas dores, e do quanto precisam ter alguém próximo que os apóie e o quanto isso seria facilitador na sua existência. Em uma das nossas reuniões um adolescente fez uma “declaração” para sua mãe, que embora com dificuldades, sempre esteve ao seu lado, e que se não fosse por ela certamente ele não estaria mais ali - ele havia sofrido muito, pensado em suicídio – esse relato emocionou a todos dando gênese em muitos pais de um sentimento que facilitou sua abertura para o seu filho, aprende-se muito compartilhando.

É muito importante ter este momento e espaço, onde são acolhidos tanto os pais, quanto sua relação com seus filhos. Ambos podem contar de seus sentimentos, de seu processo, de suas dores e solidão dentro deste percurso. Em muitas situações, quando falamos em adolescentes, as respostas são prementes, e uma das tarefas importantes a serem feitas, lado a lado, é que cada um terá seu tempo e sua rota, que ambos, paciente e família não possam se iludir com respostas mágicas – como, por exemplo, se ele ou ela tomar o hormônio, tudo se resolverá... É preciso olhar para cada um dentro de sua história e características para que as etapas sejam trilhadas tempo a tempo, o que não é uma tarefa nada fácil para um adolescente.

Neste processo de autoconhecimento é preciso ter firmeza e equilíbrio, o que se adquire, também com muito conhecimento, para que haja compreensão, sem desvalorizar o sofrimento. O esforço e envolvimento familiar faz muita diferença neste caminho, como em qualquer etapa da vida. O trajeto não é linear e previsível, mas com a família ao seu lado e a equipe transdisciplinar de saúde, pode-se tornar menos penoso de ser percorrido. Em muitas situações, os pais são o esteio dos adolescentes e para que isso seja possível eles precisam ter equilíbrio.

Quando as questões familiares ultrapassam o que é possível ser trabalhado no grupo de pais, temos algumas orientações mais particularizadas, e quando a necessidade é ainda maior, serão feitos encaminhamentos para terapia familiar ou individuais.

 

O papel fundamental das escolas e o trabalho do grupo de orientação com equipe pedagógica e docentes

 

Um dos fundamentais meios de socialização do ser humano, a educação é uma das áreas que mais precisa entender e se apropriar sobre o tema da diversidade sexual, mas sabe-se que apesar de já ter havido muitos avanços nas discussões, temos muitos alunos que ainda sofrem e vivenciam muitas dificuldades dentro e fora da sala de aula. Pensando em qual seria o papel do educador nessa questão e como ele poderia se tornar ferramenta facilitadora das mudanças de nossa sociedade; criamos em nosso ambulatório o grupo das escolas. Passamos a ter um contato mais próximo com as instituições em que nossos pacientes estavam inseridos, mas prontamente ampliamos para as equipes pedagógicas e docentes que tinham interesse em participar, se preparar e se atualizar dentro desse tema.

Os encontros com as escolas ocorrem a cada três meses no ambulatório, com a possibilidade de serem ampliados se houver disponibilidade de tempo da equipe. Existem dois formatos que são realizados de forma intercalada: aula expositiva e roda de conversa. Também damos orientação de livros e filmes para inspirar novas discussões nas reuniões que serão feitas entre os próprios membros da escola, mantemos um canal aberto por email que pode ser acionado a qualquer tempo para serem dadas sugestões de novos temas para os próximos encontros ou para assistência de algum tema emergente na instituição que envolva a temática de crianças ou adolescentes transexuais. Nessas rodas de conversa ouvimos orientadores, coordenadores e professores relatarem suas dúvidas e experiências, discutimos a respeito do dia a dia da escola e seus desafios, preconceitos, falta de compreensão dos temas envolvidos, além das dificuldades enfrentadas com as crianças, seus pais e os demais pais da escola. Nas aulas expositivas abordamos conceitos, conhecimentos específicos e da realidade vivida pelas pessoas transexuais, além das leis acerca do tema.

A escola tem um papel fundamental na vida das crianças e dos adolescentes, além de contribuir com o conhecimento participa ativamente no desenvolvimento biopsicossocial. Ela contribui eficientemente na construção, ressignificação de valores e expressão da nossa sociedade e não seria possível se isentar da sua responsabilidade na temática da transgeneridade.

As escolas precisam se atualizar e ter conhecimento das dificuldades da transgeneridade para servirem de facilitadores para essas crianças e adolescentes que frequentam a sua instituição, evitando assim o abandono escolar, muito alto nesta população. Também é papel primordial zelar pela integridade física da criança e do adolescente que estudam na sua escola, além de treinar o grupo técnico que assiste essa população e de trabalhar com os demais alunos, a fim de construir cidadãos que respeitem a diferença. A escola é um importante agente de mudanças sociais e neste tema seu papel será essencial, porque terá que se posicionar fortemente, mesmo que alguns pais das crianças ou adolescentes que convivam com o individuo transgênero exerçam resistência por preconceito. Perceber seu aluno dentro do contexto escolar, compreendê-lo e facilitar sua convivência entre os demais é o objetivo de qualquer instituição perante os temas LGBT.

A escola é espaço no qual o aluno leva suas preocupações, inclusive as que não se referem aos conteúdos discutidos na escola, suas dificuldades sociais e afetivas também são temas entre os estudantes ou com os professores. Nas discussões das aulas, surgem debates de vários problemas ligados ao desenvolvimento da sexualidade: namoro, ISTs e Aids, autoestima baixa, desleixo nos cuidados pessoais, gravidez indesejada, violência sexual, feminismo e machismo, questões de orientação sexual e identidade de gênero, entre outros, que afetam não só o rendimento escolar, mas também seus relacionamentos e sua qualidade e aptidão de vida.

Os dados oficiais evidenciam que o Brasil tem conquistado importantes deliberações em relação aos grupos minoritários da sociedade, como ampliação no acesso e no exercício dos direitos, por parte de seus cidadãos. Entretanto, temos muitos desafios a vencer como: a ampliação do acesso à educação básica e de nível médio, o respeito e a valorização da diversidade. As discriminações de gênero, étnico-racial e por orientação sexual, como também a violência da homofobia, ainda são reproduzidas nos espaços da sociedade brasileira. A escola não foge a regra e, muitas vezes, é um deles. O trabalho com as escolas visa fomentar a discussão e a mudança desses paradigmas que nos colocam como primeiros nos rankings de violência contra essas minorias; acreditamos que a cada encontra possamos fazer por meio da reflexão e de profissionais comprometidos com essa mudança, que sejam multiplicadores desses conhecimentos com seus pares em suas instituições. Acreditamos que incluir referências às questões de gênero nas escolas é dar o “start” para: o aperfeiçoamento da qualidade da educação, superação das desigualdades e preconceito, e luta contra a evasão escolar.

O grupo das escolas é um momento de co-construção dos profissionais da equipe transdisciplinar do ambulatório e das escolas presentes. Esse grupo oferece um espaço de discussão e reflexão permanentes, para fortalecer o direito à sexualidade saudável, a segurança e bem estar dos alunos, com o intuito de possibilitar ações preventivas, assim como o respeito em relação à diversidade sexual.

 


 

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[1]Cissexual e cisgênero são termos utilizados para se referir às pessoas cujo gênero é o mesmo que o designado em seu nascimento, isto é, configura uma concordância entre a identidade de gênero de um indivíduo com o gênero associado ao seu sexo biológico.